Machado de Assis e a desrazão

Por Luciana Saddi

Não faz muito tempo, num sábado à toa, meu filho me pediu “Dom Casmurro” de Machado de Assis. Disse que era leitura para a escola. Fiquei comovida em saber que ele leria os mesmos livros que um dia li. Algo de continuidade no tempo, de circularidade do tempo, promovia um encontro além dos nossos tempos. “Dom Casmurro” costurava nossas gerações, mãe e filho e Capitu e Bentinho se encontravam numa tarde qualquer de um sábado fresco. Acreditei que o livro estivesse em algum lugar da estante desarrumada, eu lera “Dom Casmurro” na mesma idade do garoto, talvez o livro ainda estivesse em casa, trinta anos depois. Lucas foi a procura do livro, se enfiou no quarto…era tudo silêncio. Será que ele tinha encontrado o antigo volume de couro verde, capa dura, que eu herdara de meus pais?

Passados alguns minutos escutei um manheeee, alto e claro, vindo de seu quarto. Ele me pedia que comprasse “Dom Casmurro”, era para a escola, era urgente. Fiquei um pouco atordoada, acreditava que ele tivesse encontrado o volume, mas, a idade nos traz muitas dúvidas, não é? A memória e os livros antigos mofam, era provável, não tinha certeza, que o velho Machado de capa verde tivesse ido para o sebo, podia ser na última reforma, na penúltima, quem sabe?

Tratei de ir o mais rápido que pude à livraria, era para a escola, era urgente, eu estava comovida, o eterno retorno, o ciclo da vida, meu filho estava prestes a ler o livro que eu lera quando tinha sua idade. Por sorte, Machado de Assis ganhara uma coleção de bolso só sua, era barato, leve, novinho, páginas brancas como noivas virginais. Dei para Lucas um “Dom Casmurro” intocado, aroma de papel novo, pura água cristalina, vindo direto da fonte, sem leitores intermediários, mãos rançosas, páginas marcadas, amarelas, ácaros ou fungos.

Passados alguns minutos escutei um manheee, alto e claro, vindo de seu quarto. Ele me pedia que comprasse “Dom Casmurro”, era para a escola, era urgente. Mesmo comovida, encontro além dos tempos, eterno retorno, ciclo da vida têm limite. Eu tinha quase certeza que lhe dera o volume novo, saído do forno, fora na livraria, comprara ou será que era sonho meu? Na mesa estava a sacola vazia com o logotipo da loja. Mas, na dúvida é melhor perguntar. Cheia de incertezas entrei em seu quarto, acanhada, rabo entre as pernas, falando: filhinho, meu bem, será, queria saber, pode ser… mas o livro estava lá. Quieto, no criado mudo, branco, de bolso, puro, sem se mexer, o novo “Dom Casmurro” estava lá.

Perguntei o que havia acontecido, afinal, comprara o livro, estava lá, qual era o problema? Lucas sentou na cama, peito inflado, olhar de rapina, disse que o problema era a tradução. A edição de bolso estava muito mal traduzida, não dava para entender nada. Pensei, quanta ignorância cabe num garoto! Com voz contida, lhe disse que Machado de Assis escrevera em português, por isso, não havia tradução. Era português. Ele, olhar desconfiado, me disse ser impossível, não era português de jeito nenhum. Como não? De jeito nenhum, mãe, deixa de ser teimosa, você pensa que sabe tudo, mas não sabe, olha essa frase: Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Nada a ver. Cosi-me muito à parede…presilhas, rodaque e gravata de mola. Nada a ver. …as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. Não é português! A fortuna troca muita vez as mãos à natureza. Ninguém entende! Respirei fundo e, calmamente, perguntei qual era a matéria na escola que pedira a leitura do livro. Ele se calou, não lembrava.

Pensei nas palavras de Bentinho: O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. O meu fim, jamais seria este!

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