Jout Jout, uma amiga íntima virtual

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Tenho uma amiga que está fascinada com a Jout Jout, uma youtuber de 26 anos. Assiste aos vídeos um monte de vezes, não desgruda. Diz que a Jout Jout – que tem milhões de seguidores! – é sua melhor amiga. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Que bom que você se interessa por esses assuntos do cotidiano que parecem banais! O olhar psicanalítico mostra que eles revelam algo de nossa cultura e, portanto, de nós, do nosso sofrimento psíquico. São pequenos sintomas do mal-estar na civilização.

Não assisti a todos, evidentemente. Gostei de um chamado “Han, han, han”; de outro que se chama “Para você que é uma fraude”; e outro “É obvio que você está ansioso”.

Eu também vi!

Ótimo, então podemos comparar nossas impressões. Em todos ela está na casa dela, vestida como a gente quando está em casa, sem maquiagem, sem produção nenhuma. E fala de assuntos que tem a ver com a vida real das pessoas.

Ela fala diretamente com quem assiste, de um jeito simples e íntimo.

Também achei isso. Acho que é justamente a intimidade que ela estabelece que fascina as pessoas. Talvez por isso sua amiga diga que Jout Jout é sua melhor amiga.

Mas o que isso tem a ver com o sofrimento psíquico que você mencionou?

Ah, eu acho que o sucesso dela revela a fome de intimidade dos jovens. E a fome de intimidade é um tipo de sofrimento psíquico. Tem a ver com a nossa cultura, que dá tanta importância ao sucesso pessoal. As pessoas passam a lutar por grandes conquistas, pelo famoso “dar certo na vida”. Acabam odiando em si mesmas, e também nos outros, as “falhas” que estragam a imagem de sucesso. Só que não há intimidade possível sem algum amor por elas…

Veja os assuntos que ela escolhe. Em “Han, han, han” ela ensina as pessoas a comporem letra de música usando temas que estão ao seu redor, por exemplo, no quarto: controle remoto, fita isolante, janela, tesoura. Ela tem coragem de se expor ao nosso olhar, ainda que não tenha algo de incrível e maravilhoso para mostrar. E se tem coragem, é porque sente que não vamos desprezá-la por isso.

No segundo ela fala sobre esse sentimento tão comum quanto pesado de nos sentirmos uma fraude quando conquistamos alguma coisa boa. Eu mesma já senti isso muitas vezes.

Eu também! Você percebe que esses temas têm algo em comum? Ela expõe uma sensação que também não é incrível e maravilhosa de se contar para os outros. E fala com tanta naturalidade que nós, que temos vergonha de nos sentirmos uma fraude, ficamos com menos vergonha. É um conforto emocional descobrir que os outros são como nós.

Principalmente numa cultura que valoriza o sucesso acima de tudo!

Jout Jout nos ajuda a descolar, a ter uma postura crítica diante da ideologia do sucesso, fonte de mal-estar na nossa civilização; e nos ajuda a resgatar o conforto da intimidade e das coisas simples da vida.

Imagine cantar sem banda – e numa voz absolutamente comum – uma música falando de fita isolante e tesoura, para milhões de pessoas!

(risos) Pois é! Sofremos porque temos que mostrar o tempo todo que estamos bem, felizes e que ‘estamos podendo’. Que fazemos viagens incríveis e comemos em restaurantes maravilhosos. A intimidade é a situação oposta, em que cada um pode expor suas fraquezas para o outro sem medo de ser desprezado.

Em que condições isso é possível?

Tudo nos vídeos dela indica que ela está de bem com suas próprias imperfeições e inseguranças. Não se envergonha porque aceitou emocionalmente que tudo isso é parte da condição humana. Por isso, em vez de desprezo, ela olha para tais “falhas” – quer dizer, para como as pessoas são na vida real! (risos) – amorosamente. Ela nos transmite que não há do que se envergonhar, não é preciso esconder nossas limitações do olhar dos outros. Ela nos convida para estar com ela numa situação de intimidade.

Adoro tomar lanche na cozinha da casa de uma amiga. O ambiente é acolhedor e intimista porque é simples, sem frescuras. Da última vez a gente falava sobre as frustrações de não ter dinheiro suficiente para uma viagem que parecia tão bacana …

Puro conforto emocional, não é mesmo!?

Sim. Agora entendo por que minha amiga não desgruda da Jout Jout. Ela, que está estressadíssima tentando dar certo na vida, encontrou essa “cozinha virtual” para falar de tudo o que não dá certo”.

Muito louco tudo isso!

 

 

 

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2 comentários sobre “Jout Jout, uma amiga íntima virtual

  1. Magnífica matéria! Amei…pois estudiosa de Psicanálise q sou há 42anos, observo a grande nessecidade de abrir o pensamento psicanalítico falando sobre o trivial absurdo que acontece…no dia a dia… na rua…cidade…estado…ou pais …mundo…os psicanalistas não podem eximir-se da responsabilidade q tem com a Psicanálise de apresentar publicamente como essa vê o e Iida com o humano!

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    • Desculpe a demora em responder. Ainda estou me familiarizando com o Facebook/Wordpress. Concordo, Deíse. A psicanálise é um instrumento potente para analisar qualquer produção humana. Ela ajuda a desconstruir e a relativizar as certezas, o que é sempre terapêutico no sentido amplo do termo.

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