Que série você está assistindo?

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Nunca tinha reparado que todos os meus amigos estão assistindo a alguma série. Elas são assunto de conversa, as pessoas trocam dicas. Algumas séries viram febre, todo mundo já assistiu. Há centenas de ofertas na Netflix e os fãs ficam esperando as novas temporadas de sua série predileta. Mais de uma amiga faz maratonas: chega a ficar 10 horas seguidas assistindo! O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Sabe que eu também tinha reparado? No começo pensei que as séries tinham a mesma função das novelas, que apresentam as relações humanas em determinado recorte sociocultural. Nós acompanhamos, mas também nos sentimos acompanhados pelos personagens e participamos de suas vidas.

Mas considerando que há séries tão diferentes como Vikings, Friends, Downtown Abbey, House of Cards, Breaking Bad, acho que elas preenchem alguma outra necessidade.

Tem razão. Graças a elas temos a oportunidade de conhecer e de vivenciar “por dentro” realidades tão diferentes da nossa! Como será que sentiam, pensavam e agiam os vikings e a aristocracia do começo do século 20? Como se entra no crime e como funciona a mente de um criminoso? Como é o mundo da política e por que as pessoas se apaixonam pelo poder?

Quando entramos nesses universos, descobrimos que eles são regidos por uma lógica própria. Naquele contexto, é natural e esperado que as pessoas se comportem como se comportam.

Quer dizer, descobrimos que se estivéssemos lá, veríamos o mundo como eles. Pensaríamos como eles. E até agiríamos como eles!

Isso mesmo. Aquela forma de ser nos pareceria natural. Quando enxergamos isso, acabamos reconhecendo que nós mesmos pensamos, sentimos e agimos como agimos, só porque estamos imersos num determinado contexto sociocultural. Quando vista “de fora”, nossa vida é tão bizarra quanto a dos vikings! Aposto que eles pensariam isso de nós! (risos).

(risos) É mesmo! E graças às séries sinto que desenvolvi minha capacidade de empatizar com o outro; descobri que ele é, ao mesmo tempo, diferente e semelhante a mim.

A série nos faz mergulhar num determinado universo. Por mais diferente que seja, acabamos nos identificando com aquelas pessoas e com aquelas vidas. A verdade é que “nada do que é humano me é estranho”. Se num primeiro momento a gente as acha tão estranhas, é porque defendemos nosso narcisismo pensando: como a vida deles é esquisita! A minha é que é normal!

Mas se não nos defendemos, elas acabam produzindo algum efeito analítico. Identificar-se com o outro significa reconhecer aspectos do eu que até então permaneciam latentes, intocados, desconhecidos de nós mesmos. Desconstruímos nossas certezas. Fazemos o luto da pretensão de sermos o centro do mundo. Nesse sentido, as séries expandem nosso repertório psíquico, como qualquer processo analítico.

Então elas têm a mesma função que a literatura! Na sociedade do espetáculo, sob o império da imagem, as imagens tendem a substituir o texto. As séries substituem os grandes romances.

Parece que hoje em dia as séries têm, mesmo, mais apelo popular do que os livros. Sem entrar no mérito da qualidade, ambos nos permitem viver outras vidas, o que nos torna mais aptos a conviver com a diferença. Os fanáticos – de todos os tipos! – são aqueles que não toleram quem pensa diferente. Se sentem ameaçados.

Em seu livro ‘Como curar um fanático’, Amós Oz diz exatamente isso: só a capacidade de se colocar na pele do outro pode curar um fanático. Ele acha que a literatura tem essa função.

Acho que as séries também têm. Na nossa conversa anterior sugeri que Jout Jout funciona como uma amiga íntima virtual, o que mostra como temos fome de intimidade num mundo dominado pela ideologia do sucesso. Acho que a febre das séries revela a fome de alteridade – alter quer dizer ‘o outro’ – num mundo em que toda e qualquer diferença é vivida como ameaça.

Ou seja, buscamos as séries para nos curar do sofrimento psíquico produzido por um mundo no qual temos que nos isolar entre iguais para nos proteger da diferença. As séries oxigenam um cotidiano no qual a gente tende a conviver só com os iguais.

Acho que sim. Precisamos do outro-diferente-de-nós porque só ele nos dá referências de outras vidas possíveis. E isso nos ajuda a relativizar, a expandir e a enriquecer a nossa. Quanto mais hostilizamos o outro, mais nos empobrecemos.

Muito louco tudo isso!

 

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2 comentários sobre “Que série você está assistindo?

  1. Realmente é bem curioso, o século XXI, as séries, a força da tecnologia impactando o imaginário humano, substituindo a literatura, com suas estórias e personagens que apresentam todas personas que existem dentro de cada um.Apreciei muito sua análise!!

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    • Desculpe a demora em responder. Ainda estou aprendendo a mexer nisto. Isso mesmo, séries e literatura nos tornam sensíveis às personas que nos habitam. Você acha que faz diferença ler e imaginar as cenas descritas, ou receber a imagem pronta? Será que receber a imagem pronta vai atrofiando nossa capacidade de imaginar? Não sei…

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