Só pele e osso

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Hoje (25/7/2017) estava lendo na Folha Equilíbrio uma matéria que fala da polêmica em torno do filme sobre anorexia “O mínimo para viver” (To the bone). Ele apresenta cenas de meninas esqueléticas, à beira da morte, e também fala dos truques secretos que elas usam para não engordar. Tem gente que acha que isso acaba estimulando quem está nesse caminho; outros pensam que é melhor falar abertamente, pois ajuda a entender quem sofre de transtornos alimentares. Para além da polêmica, eu achei interessante o tratamento alternativo proposto: uma espécie de comunidade terapêutica. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Eu também vi o filme e a polêmica. Sugestão da Lu Botter, minha editora. Concordo com você: o mais interessante é a dinâmica que se cria naquela pequena comunidade, e que pode ter, em si mesma, algum valor terapêutico.

Não sou especialista em transtornos alimentares, mas tenho algumas ideias sobre isso. Do ponto de vista da psicanálise, a doença não é propriamente o transtorno alimentar. Ele é entendido como o sintoma resultante de um sofrimento psíquico subjacente. Para nós, um sintoma – nesse caso, o transtorno alimentar –, é visto como uma tentativa de autocura, isto é, de encontrar, por conta própria, algum alívio para o sofrimento psíquico.

Faz sentido, pois uma das meninas entrevistadas na matéria da Folha, Tainá Perrucci, usa exatamente esse termo. Diz que ficar sem comer fazia com que se sentisse bem, mais leve, e que ia vendo até quando conseguia. Isso lhe produzia alívio!

Tem a ver com o que você disse na nossa conversa sobre o vício por Netflix. O remédio que produz alívio acaba viciando. Passar fome e emagrecer vira um vício, como disse a Tainá.

Bem lembrado. É paradoxal e terrível, pois neste caso, o que produz alívio também pode levar à morte. Claro que é preciso intervir com firmeza quando este risco é iminente, mas se tentarmos só atacar o sintoma, não conseguiremos nada. Temos que acessar o sofrimento psíquico que subjaz a ele. A sensação de fome produz alívio porque disfarça a angústia produzida pela sensação de pele psíquica arrebentada.

A outra entrevistada, Julia Carvalho, disse que quando os pais descobriram puseram ela de castigo…

É que esse sintoma deixa as pessoas desconcertadas, sem saber o que fazer.

Mas o que você acha que a reação deles revela?

Que não eram capazes de fazer contato com o sofrimento emocional dela.

Exatamente! Não tinham acesso a essa dimensão da vida da filha porque não tinham esse chip instalado no próprio psiquismo. Imagino que todos sofriam sem sequer saber que sofriam. Acredito que o castigo era uma tentativa de colocar limites, ou de fazer um adestramento, como se faz com os cachorros. Para alguém chegar no ponto da anorexia temos que supor que a não-comunicação era o padrão prevalente naquela família.

Mas com certeza todos se amavam muito!

É verdade, mas o amor não basta. A comunicação emocional profunda, significativa, com outro ser humano, é uma necessidade básica e vital para que o eu possa desenvolver suas várias funções psíquicas. Entre elas, uma pele psíquica razoavelmente resistente.

O que seria essa ‘comunicação emocional profunda’?

É mais fácil dar um exemplo. “A Julia está tentando comunicar que há algo de muito errado com nossa família e com a vida dela. Ela está sofrendo com alguma coisa. A gente não consegue saber o que é, mas certamente tem a ver com dificuldades que dizem respeito a todos nós. Precisamos de ajuda”.

Entendo. A comunicação profunda acessa, reconhece e legitima o sofrimento psíquico do outro. Não se detém na superfície e aparências, na linha de “não lhe falta nada, ela tem tudo para ser feliz”. Nem coloca as dificuldades na conta de uma única pessoa, “o patinho feio da família”. Só isso já aliviaria um pouco a angústia de Julia, e então, talvez ela não precisasse recorrer ao sintoma.

Isso mesmo. Mas eu queria voltar para outra coisa que ela disse na entrevista. Seu maior presente foi o Instagram. “Recebo muitas mensagens calorosas, pedidos de ajuda. Quando penso em recair, dizem ‘não desista, você é minha inspiração’”.

Ela está dizendo que se segura, ou melhor, que se alimenta (!) dos vínculos que construiu graças ao Instagram. Recebe mensagens dizendo como ela é importante para as pessoas que a seguem. E vice-versa. Há uma comunicação profunda rolando naquela comunidade virtual.

Nesse sentido, é parecido com o tratamento alternativo proposto no filme! Vários jovens sofrendo de transtornos alimentares vivem juntos na mesma casa. Conversam, percebem que todos têm mais ou menos as mesmas dificuldades, e se apoiam mutuamente. Também é uma comunidade.

Justamente. Para a psicanálise, as pessoas adoecem na relação com os outros, e se curam na relação com os outros – mesmo quando ‘os outros’ são um só: o analista.

No fim do filme, o que vemos é a valorização – e a fome! – dos vínculos significativos que foram criados naquela nova família.

Os novos vínculos significativos podem não resolver tudo, já que os transtornos alimentares se produzem no entrecruzamento do psiquismo individual, familiar e cultural. Mas certamente ajudam!

Muito louco tudo isso!

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