Espelho, espelho seu

Por Luciana Saddi

Minha manicure trabalhava num cabeleireiro de bairro, onde a decoração era pretensiosa, a limpeza deixava a desejar, o lugar era mal iluminado e os espelhos escuros produziam imagens aquém da realidade. De tanto fazer as unhas acabei por me familiarizar com o espelhamento daquele lugar repleto de pessoas carinhosas, que me chamavam de doutora, me adulavam com facilidade e eram ineficientes – lá me sentia bem.

A minha imagem refletida nos espelhos daquele salão se assemelhava a que vejo no banheiro de casa. Mas a manicure recebeu uma oferta de trabalho melhor e se mudou para um ultrachic cabeleireiro, coisa de arquiteto, de paisagista, de mulheres ultramagras, altas e bem vestidas que gastam fortunas em poucas horas e acreditam em tratamentos demorados. O lugar é lindo, as orquídeas são maravilhosas, a simpatia é quase sempre falsa, mas o serviço eficiente. Os espelhos enormes e bem iluminados me refletem como uma mulher horrorosa, com a pele marrom escura e mortiça, a boca caída, banha pra tudo quanto é lado. Juro que nunca estive tão feia e tão velha quanto naqueles malditos lindos espelhos. Fico pensando se não é um truque do tipo antes e depois. Entra, senta em frente ao espelho e se espanta, faz os tratamentos mais caros do mundo, uma escova impagável, daí eles apertam um botão escondido e surge uma versão sua bela e viçosa refletida no lindo espelho. Fiz o teste e descobri que minhas suspeitas eram infundadas, nada de botão escondido. Pensei que talvez o truque do salão fosse conduzir as clientes a outra sala requintada, com espelhos modeladores, como nas lojas que têm espelhos emagrecedores no provador. Findos os tratamentos de beleza iríamos a um lugar especial e lá se revelaria uma mulher renovada, mas nada disso aconteceu.

Ou acredito que algo de mim entra no espelho, vai grudando na parede e formando camadas de Luciana, que negociam suavemente com as cores da pele, com as gorduras e com as rugas (a ponto da gente nem perceber o que mudou). Ou acredito que o truque é muito baixo e o salão me mantenha medonha e velha para que eu passe o resto da vida cativa, procurando melhorar. Ou acabei de descobrir uma coisa muito interessante a respeito dos espelhos: eles precisam de ajuste. Todos sem exceção devem ser calibrados pelo tempo, pois não há boa relação imediata entre a gente e a imagem refletida, a menos que o tenhamos alimentado e cuidado por um tempo. Espelho é que nem leão de circo, pode comer o domador em minutos caso não receba toda a carne e carinho que necessita.

 

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