Você está podendo?

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa! Sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Meu primo tinha começado a cultivar uma horta no sítio dele. Era muito dedicado e se empenhava com amor em fazer crescer uns pepinos. Quando nasceu o primeiro, chorou de emoção. Até entendo que a gente fique satisfeito em colher os frutos do nosso trabalho, mas chorar por causa de um pepino? O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Observação sutil, a sua! Porque a psicanálise se interessa justamente por situações que parecem desproporcionais ou enigmáticas para o senso comum. Ninguém se espantaria se ele se emocionasse com o nascimento de um filho. Mas você vai ver que o inconsciente tem sua lógica, e que seu primo deve ter boas razões para chorar de emoção ao ver seu primeiro pepino – o que não aconteceria necessariamente com você, por exemplo. Suponho que o pepino lhe deu alguma notícia sobre ele mesmo, e foi essa mensagem que o emocionou.

Talvez seja a mesma notícia que o recém-nascido dá a seus pais.

Você sacou que, do nosso ponto de vista, importam menos as coisas em si mesmas e mais o que elas significam para cada um. Pepino e bebê podem significar a mesma coisa do ponto de vista do nosso funcionamento psíquico.

Pois bem. Para entendermos que notícias o pepino deu ao seu primo, precisamos saber como nasce o eu. Nos primeiros anos de vida só podemos ter notícias de nós por meio das mensagens que as pessoas significativas nos enviam. Para o bem ou para o mal.

São essas mensagens que nos contam o que significamos para elas.

Sim, mas o mais importante não são suas mensagens verbais, e sim aquelas que são transmitidas inconscientemente pelos poros, pela pele, por uma comunicação não verbal. É com elas que nos identificamos. A criança pequena também capta essa comunicação pela pele – como os cachorrinhos, que podem não entender as palavras, mas entendem perfeitamente o tom com que falamos com eles. Por isso não adianta repetir “eu te amo” se os poros do inconsciente dizem “você me decepciona”.

Espere um pouco, você foi rápido demais: como assim, nos identificamos com essas mensagens? Identificar-se é tornar-se idêntico?

Mais ou menos. A criança pequena “traduz” as mensagens que vêm dos poros do inconsciente do jeito que pode, com os recursos que tem. Muitas vezes a tradução é cheia de equívocos. Ou pior, ela nem consegue traduzir nada. Mesmo assim, ela vai se identificar com o que “entendeu”. Assim nasce a parte inconsciente do eu.

E você disse que isso acontece para o bem ou para o mal?

Sim, e com isso nos aproximamos do pepino. Das muitas capacidades inatas da criança, os poros da mãe (na verdade, do ambiente como um todo) qualificam-nas ou desqualificam-nas conforme suas próprias expectativas. E eles tanto podem dizer “para mim você vale, você pode”, quanto “para mim você não vale, não pode …”.

Então a criança poderá se identificar com ambas as mensagens, uma que fortalece e/ou outra que acaba com a autoestima.

Exatamente! A potência vital do eu depende, dentre outros fatores, da internalização e da identificação com o primeiro tipo de mensagem.

Traduzindo…

Precisamos fazer com que esse olhar, inicialmente externo, se transforme no modo como olhamos para nós mesmos. E então poderemos ter a sensação de que “estou podendo”.

Que é uma sensação maravilhosa!

O oposto disso é a vivência de impotência: “não tenho valor, não sou capaz, não dou conta”. Chamamos isso de identificação melancólica. Essa identificação é tão forte, tão potente, que podemos passar a vida acreditando nessa versão de nós mesmos. E o pior é que quanto mais a gente acredita nela, mais vai comprovar que não damos conta mesmo.

E o pepino?

Calma, estou chegando lá. Quando crescemos, a opinião das pessoas significativas continua sendo importante, mas idealmente adquirimos também alguma independência em relação a elas. Pois as coisas que realizamos no dia a dia também nos dão notícias sobre nós: um esporte, um bolo, ou um belo pepino que acaba de nascer. Essas realizações podem relativizar aquela verdade sobre o eu que parecia definitiva e absoluta. Se o pepino tem valor, então o eu também tem valor.

É verdade que meu primo não conseguia se acertar na vida. Ele se via como um fracasso.

Então dá para entender a emoção que toma conta dele quando vê seu primeiro pepino. Pela primeira vez em muito tempo, em vez de se sentir um fracasso, sente que “está podendo”.

Ah, é por isso que as histórias de superação nos emocionam tanto!

Bem lembrado! Em geral essas histórias falam da superação de dificuldades concretas. Mas para superar dificuldades concretas precisamos antes superar dificuldades internas, amarras psíquicas.

Seriam as tais identificações melancólicas, que fazem com que a gente tenha certeza de que “não vou dar conta”?

As próprias. Se não conseguirmos superar essas amarras, não damos nem o primeiro passo para tentar superar as dificuldades concretas! A emoção do seu primo nos conta que, por alguma razão, ele não se sentia capaz de produzir algo bom, vivo, de valor. E por isso acabava fracassando. Ele se emociona pois superou não apenas dificuldades botânicas, mas também as amarras inconscientes que o impediam de acreditar em si mesmo.

Muito louco tudo isso!

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3 comentários sobre “Você está podendo?

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