Jeans rasgado

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que você gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! O jeans é uma roupa usada por todo mundo, jovens e velhos, ricos e pobres. É sinal de descontração, de estar à vontade. Diferente da roupa social, em que a pessoa obedece aos códigos de vestir obrigatórios em certos contextos. Agora, o que não consigo entender é o jeans rasgado! Vamos combinar que ninguém quer comprar um carro novo que já venha amassado. E se alguém percebe que sua blusa furou sem querer, pode ficar com vergonha. Então, por que rasgar uma calça nova para vendê-la? Por que alguém compraria uma calça rasgada? Isso não te parece uma loucura? O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Sua pergunta é um desafio, porque esse tipo de assunto costuma ser estudado por antropólogos ou pelo pessoal da semiótica. Só que esses mesmos fenômenos podem perfeitamente ser estudados pela psicanálise, contanto que sejam entendidos como sintomas de algum tipo de mal-estar na civilização.

Mal-estar pelas renúncias impostas por nossa civilização?

Isso mesmo. Cada época e lugar impõe renúncias diferentes. São verdadeiras amputações. A parte amputada faz falta. Temos notícias disso pelo sofrimento psíquico de cada um de nós, mas também pela via das loucuras cotidianas.

Lembro que numa conversa anterior [Você também gosta de cozinhar?] você interpretou a gourmetização da vida como busca de transcendência. Seria um “sintoma” da nossa cultura materialista, que tende a amputar a dimensão não funcional da vida.

Bem lembrado. A própria cultura se encarrega de produzir “soluções sintomáticas” para aliviar este sofrimento.

Entendo. Outro dia comprei um pé de alface orgânico num site que entrega em casa. Ele veio “assinado” pela família que o cultivou e colheu no dia anterior. Você acha que isso revela a amputação do quê? Aponta para que tipo de mal-estar na civilização?

O pé de alface “assinado” indica a valorização do trabalho dos pequenos agricultores. Nos grandes centros urbanos, fomos amputados do contato direto com a terra.

Indica também a valorização do trabalho braçal. Fomos amputados da possibilidade de fazer esforço físico, já que as máquinas fazem isso por nós. Precisamos ir a uma academia de ginástica para fazer força!

E mostra a valorização do contato físico, material e concreto com o produto do nosso trabalho. Esse contato fica amputado quando produzimos bens imateriais como marcas, imagens e conceitos.

E a moda do jeans rasgado?

Acho que também aponta para várias dimensões da vida que foram amputadas. Depende da leitura que cada um faz desse look.

Para mim esse look remete a uma época em que o trabalho era predominantemente braçal. Os operários ralavam e produziam coisas concretas com o suor do rosto. O jeans ficava desbotado de tanto sujar e lavar. Acabava rasgando.

Por que usar um jeans rasgado hoje, quando muito do que se produz é através de máquinas e computadores?

Justamente por isso! Porque fomos amputados da possibilidade de deixar uma marca concreta, pessoal, no mundo. O jeans rasgado mostra a revalorização do trabalho braçal – e também artesanal. Minha editora, a Lu Botter, produz junto com sua irmã Bel, uma granola artesanal muito gostosa. Elas devem ter em torno de 30 anos. As duas se formaram em Psicologia, e a Lu também em Direito. Foram produzir uma “granola de autor”. Escolheram passar horas suando na frente de um forno.

Mais ou menos como o pé de alface orgânico que veio assinado! A família passa dias suando para produzir verduras. E se orgulham disso. Há mesmo uma revalorização do suor do rosto, da marca pessoal, do produto concreto.

Por isso as pessoas se orgulham de usar jeans rasgado. Num mundo que valoriza a produtividade acima de tudo, mas passou a valorizar a produtividade não industrial, não massificada, essa moda diz: “Eu ralo, sou produtivo, meu trabalho faz diferença neste mundo”.

Mas essa é a minha leitura dos rasgos, como resultado do duro trabalho braçal. E você, o que vê?

Eu vejo os rasgos deixados por um sexo selvagem, por um tesão irrefreável. O jeans se rasgou durante uma cena erótica tórrida.

Essa é uma outra leitura possível, e coincide com a opinião da minha amiga e psicanalista Marilsa Taffarel.

Já a Isabel Marazina, outra psicanalista, acha que o look remete à escassez, à falta. Ela vê nestes rasgos uma ironia, como se a pessoa não tivesse outra calça – numa sociedade em que todos compram muito mais do que precisam.

E várias pessoas disseram que o jeans rasgado transmite irreverência, contestação dos valores tradicionais.

Interessante! Podemos perguntar aos nossos leitores o que mais este look evoca para eles. Eu bem que gostaria de saber!

Eu também. Até porque cada leitura deste look acaba revelando alguma coisa que nossa civilização teve que amputar para ter a cara que tem.

Fiquei com vontade de retomar este tema pensando no sexo selvagem, na ironia em relação ao consumismo desenfreado e na contestação aos valores tradicionais. E, obviamente, nas sugestões que vierem dos leitores.

Vamos, sim!

Muito louco tudo isso!

 

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2 comentários sobre “Jeans rasgado

  1. Na propaganda Jeans sempre foi sinônino de liberdade (herança, acho, dos EUA, país onde ele nasceu e que preza esse valor). Nos anos 80 as propagandas falavam isso diretamente. Outro dia minha vizinha Gloria, que tem 90 anos, me contou uma historia sobre jeans rasgados (que ela acha horrível). A primeira vez que um jeans rasgado apareceu entre as roupas de seu neto ela ficou chocada. Logo pegou agulha e linha e cerziu com tanta perfeição que o rasgo não aparecia mais. O neto ficou muito bravo, furioso mesmo com isso. Ela até se assustou. Pensando nessa situação da vida real, acho que o rasgo representa um nível adicional, mais ousado, de liberdade, de ser irreverente, contra-corrente, ser dono de sua vida. E quando a avó “apaga” isso de forma invasiva, sem perguntar se ele queria, fica claro o contrário, não?

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