Máquina de costura

Por Maira Tanis

Passei em frente a uma portinha colorida onde vários cartazes coloridos e bordados diziam ser ali um ateliê de costura, de bordado, de trabalhos manuais femininos. Tudo era muito feminino e eu esperava encontrar algumas senhoras fazendo tricô. Mas toquei a campainha – um sininho delicado, como tinha que ser -, e quem me abriu a porta de vidro foi uma moça, bem moça, com um sorriso lindo. Depois deste sorriso já sabia que eu iria ficar. Quem me levou para dentro deste espaço delicado foi a lembrança viva da minha avó, costureira.

Já imersa na sua lembrança, sentada ao lado da máquina de costura de pedal e manivela, fui tomada pelo desejo de aprender a costurar, se possível naquele mesmo momento. A professora me perguntou quanto eu sabia de costura e foi difícil responder. Na verdade, não sabia nada. Sabia muito, no entanto, sobre o milagre de transformar um tecido em roupa, de estender o pano sobre a mesa da cozinha, pregar com muito zelo o molde feito em papel pardo com alfinetes, marcar o contorno com um engraçado giz azul, fazer a tesoura correr delicadamente sobre a fazenda, tratada com uma delicadeza pelas mãos experientes da minha avó. Sabia muito bem o ruído da máquina, o ritmo cadenciado da agulha costurando, o gesto transcendental de ir retirando devagar os alfinetes e espetando-os na blusa.

Minha avó quis me ensinar seu ofício, mas não tivemos paciência com minha inépcia e a ansiedade de já ter a peça pronta. Não aprendi. Mas aprendi muito. Agora estou retomando o fio de uns 45 anos atrás. O fio ficou solto, estou agora passo a passo aprendendo a costurá-lo. Parece que estou, aos poucos, unindo passado e futuro. As saudades da minha avó, da minha mãe, das mulheres que me antecederam na linha da família parecem paradoxalmente aumentar e diminuir a cada ponto que a máquina faz.

Na terceira aula a professora começa a me explicar como chulear. Escuto com atenção e comento que vai ser muito difícil fazer isso, não tenho habilidade motora para tanto. Aí ela ri e me diz: mas você já está chuelando! Olho para a máquina, para o tecido e para minhas mãos e não me contenho. Digo: não sou eu, é minha avó!

Creio que estou completando um luto antigo, quase como se saldasse uma dívida com o que não completei no passado. Para minha avó, deixar o legado da costura para alguma neta era importante pois, dessa forma, algo seu continuaria vivo. Agora, não está mais viva apenas na memória, nos pratos que a família continua cozinhando, nas fotos e nas conversas. Parece que está mais concretamente viva, minha avó e sua lida.

É um trabalho que faço com uma alegria imensa. Que poder temos de ressuscitar os mortos queridos, que força tem a memória preenchida pelos atos!

Assim como a criança pequena imita o adulto admirado, incorporando seus gestos, voz, modo de andar, de falar, de cantar, num trabalho intenso de identificação e incorporação da figura querida, necessária, até que um dia possa prescindir da presença física dela, os gestos incorporados de minha avó me fazem estar com ela e comigo, com aquela menina que não tinha paciência de alinhavar, de ajustar o molde, de enfiar a linha na máquina.

Vale o lembrete de Drummond:

“Se procurar bem, você acaba encontrando.

Não a explicação (duvidosa) da vida,

Mas a poesia (inexplicável) da vida.”

Tenho certeza de que foi a poesia que me colocou no caminho de meu ateliê de costura, que colocou a costura dentro de mim.

 

 

 

Anúncios

6 comentários sobre “Máquina de costura

  1. En canta a dor! Ainda ontem participei de uma banca de TCC do Curso de Psicologia da UFU cujo tema era a “elaboração do luto”. Vou compartilhar esse maravilhoso texto com a formanda- autora do trabalho! Valeu!!

    Curtir

  2. Olá Maíra, alguém que gosta muito de mim postou seu texto no meu face. Então compartilho um momento lindo e recente que vivi com uma aluna de costura, sim, sou professora dessa linda profissão. “A aluna me confessou que não gosta de costurar, como!!?? Você está comigo há 3 meses! Sim disse Ela, faço pequenas costuras, mas eu venho sempre por vc, o seu jeito de ensinar, a paciência e carinho, mostrando como e fácil é gratificante costurar”.

    Curtir

  3. Mi madre es costurera. No sé coser pero tengo una máquina de coser (he escrito primero de escribir :-0) que ahora la usa ella porque se ha estropeado la suya. Sé que voy a coser algún día.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s