Não fui com a sua cara

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Uma amiga que está com a vida travada foi conversar com uma psicanalista. Não foi com a cara dela. Perguntei o motivo. No começo disse que não sabia. Depois pensou, pensou, e achou que podia ser porque a mulher estava usando botas de salto alto. Dei risada. No começo achei que não tinha nada a ver. Mas depois pensei: vai ver que para minha amiga aquelas botas significam alguma coisa do mal, evocam alguma experiência desagradável. O fato é que foi antipatia à primeira vista. Foi procurar outra pessoa que não usasse botas de salto. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Cara Ana Lisa, sua pergunta tem a ver, simplesmente, com o coração da psicanálise: inconsciente e transferência. O interessante é que situações deste tipo acontecem o tempo todo na vida das pessoas. Geram turbulência e produzem sofrimento psíquico.

É mesmo. É muito comum essa “antipatia à primeira vista” acontecer quando cruzamos com alguém na rua, na festa ou no trabalho. Muitas vezes acaba em violência, que nos parece desproporcional.

Essa antipatia é muito diferente de conhecer bem a pessoa e não gostar dela! Aparentemente, é irracional. Mas não é! Da mesma forma, o amor à primeira vista. Ambos têm a ver com a leitura emocional que a pessoa fez da situação – da qual muitas vezes ela nem se dá conta.

Nossa, Marion, nunca tinha pensado nisso! Qualquer dia gostaria de entender melhor por que nos apaixonamos. Mas voltando à minha amiga, qual será a relação das botas de salto com o fato de ela não ir com a cara da analista?

Precisamos entender o que será que ela “leu” naquela mulher que usa botas de salto. E aqui entram inconsciente e transferência.

Todos nós transferimos elementos inconscientes para situações do cotidiano. Transferir significa ler emocionalmente a realidade a partir desses elementos. Ele é uma espécie de software instalado ainda na infância, com o qual processamos nossas experiências pela vida afora.

Isso ajuda a entender por que diante de um copo com água pela metade, um lê “meio cheio”, enquanto outro lê “meio vazio”!

Exatamente! Tua amiga pode ter lido a situação como “evidência” de que a analista é esnobe e arrogante. Que ela “se acha”. Isso é transferência negativa. Para nós, é a evidência de um tipo particular de sofrimento psíquico.

Então não é a bota em si, mas sim como ela leu a situação como um todo. Faz sentido! Eu teria lido a situação de outro jeito. Talvez visse ali uma analista de bem consigo mesma.

Também é transferência! Mas note que sua amiga não tirou sua impressão do nada. A bota de salto não é uma sandália havaiana. Ela realmente cria um look de empoderamento feminino. Por isso, esse look “aceita” a transferência – que faz com que a situação  seja vivida como potencialmente ameaçadora para sua autoestima.

Um look modesto demais “não aceitaria” essa transferência. Mas ela, a transferência, poderia eventualmente ser deslocada para uma suposta “superioridade intelectual”,  fazendo com que sua amiga se sentisse igualmente diminuída. A pessoa procura suportes adequados para o que precisa ser transferido.

Ela adora falar mal de mulheres que cuidam do seu visual. É um problema de autoestima?

Chamamos isso de sofrimento narcísico. Na situação que você descreveu, é possível que ela tenha se sentido diminuída, sem valor, humilhada pelo visual da analista. Pode ter ficado com inveja da mulher supostamente poderosa. A cereja deste bolo tão amargo é o pavor do desprezo do outro. O software inconsciente processa as situações emocionalmente sempre do mesmo jeito. Freud chamou isso de compulsão à repetição.

Viver com medo do desprezo do outro deve ser mesmo muito sofrido.

E é! Mas ela se defende de várias maneiras: ou se ofende com o suposto desprezo e briga, ou se envergonha por se achar tão desprezível e foge – se isola, se afasta das pessoas.

Talvez a vida dela esteja travada por causa do sofrimento narcísico, que a obriga a gastar boa parte de sua energia se defendendo dessa dor crônica na alma.

O pior é que ela acaba se tornando uma pessoa de convivência difícil. As pessoas têm que pisar em ovos o tempo todo para ela não se ofender. Muitos amigos acabam se afastando mesmo.

Isso só aumenta seu sofrimento narcísico, pois ela “comprova” o que já sabia: que não tem valor para os outros… O inconsciente é infernal, não é mesmo? Pois as maneiras como cada um lê o mundo e a si mesmo têm consequências concretas e muitas vezes trágicas na vida das pessoas.

Entendi. Quer dizer que o software inconsciente dela processa muitas situações do cotidiano como ameaça à sua autoestima. Ela reage a essa dor se defendendo. Briga ou foge. As pessoas podem interpretar isso como arrogância e se afastar, quando é justamente o contrário.

A vida é cheia desses terríveis desencontros…

O que você diria a ela, se estivesse em análise?

Primeiro perguntaria o que significa para ela alguém usar botas de salto. Devagar, comendo pelas bordas, talvez fosse possível acessar o sofrimento de se sentir desprezada. Mas isso não é uma supervisão! (risos)

Verdade! Muito louco tudo isso!

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2 comentários sobre “Não fui com a sua cara

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