Neoconservadorismo, um sintoma da miséria simbólica

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Museus e exposições de arte censuradas pelo público, sob alegação de incitar pedofilia ou simplesmente por exibirem nus artísticos que, de repente, se tornaram “obscenos”. A “cura gay” como retorno de uma postura homofóbica, em pleno 2017! Políticos de direita e/ou conservadores em ascensão, em resposta à demanda popular em vários países. Manifestações racistas no futebol. Que onda conservadora é essa? O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Assunto importante e potencialmente explosivo. Acho que a psicanálise pode ajudar a domesticar as paixões, iluminando um pouco a dinâmica inconsciente subjacente a esse fenômeno.

Na semana passada conversamos sobre a polarização [Polarização, um caso de daltonismo emocional]. Mencionei três características da atual realidade socioeconômica e cultural que ameaçam nossa integridade física e psíquica e que, por isso, produzem angústia. Sugeri que a polarização é o sintoma que revela o predomínio da lógica OU/OU – a mais simples, a mais primitiva, a que recorremos para nos defender da angústia.

Sim, eu me lembro. Foi uma boa conversa.

Pois bem, a terceira característica é a miséria simbólica, que tem tudo a ver com a crise das instituições. Na modernidade as instituições eram fortes e determinavam com mão de ferro o que era certo e o que era errado; o que se podia e o que não se podia. Não só havia valores, como eles eram rígidos demais. Quem não se encaixava no modelo dominante, sofria muito. Um exemplo disso era a família patriarcal.

Mas esse modelo não existe mais como única opção. Hoje aceitamos famílias homoafetivas e homoparentais.

Isso mesmo. Já não acreditamos num modelo único, supostamente universal. Por isso as pessoas têm muito mais liberdade para inventar novas formas de vida, novos valores, que contemplem sua singularidade.

Então a crise das instituições é boa! Ela permite que as pessoas vivam mais de acordo com suas convicções. Por que então você fala em miséria simbólica como algo negativo?

Porque uma coisa é relativizar a ideia de “verdade universal”, com o objetivo de reconhecer verdades subjetivas, legitimando várias visões de mundo. Outra coisa muito diferente é afirmar que, já que não há verdades universais, o conceito de verdade se tornou em si mesmo ultrapassado, desnecessário, nocivo e até mesmo autoritário. Jogamos fora o bebê junto com a água do banho. Essa é a desvantagem da crise das instituições.

Quer dizer, passamos de um saudável relativismo, para um relativismo absoluto.

Gostei desse termo, Ana Lisa. Se me permite, vou adotar, porque expressa com precisão uma ideia paradoxal. Passamos do relativismo relativo para um relativismo absoluto.

Fique à vontade!

O relativismo absoluto produz o que estou chamando de miséria simbólica: uma impossibilidade de afirmar qualquer valor como válido. O conceito bizarro de pós-verdade é filho disso.

É verdade! (risos) E se não faz sentido falar em verdade, também não faz sentido falar em mentira. Daí a tratar uma mentira como se fosse verdade e uma verdade como se fosse mentira, é um passo. Um passo em falso! (risos). Mas o que tudo isso tem a ver com a atual onda conservadora?

O problema é que precisamos acreditar em alguma coisa para construir nossas vidas. É uma necessidade emocional. Quem não acredita em nada não tem motivo para sair da cama de manhã. E são as instituições que “inventam” e sustentam os valores pelos quais pautamos nossas vidas.

E quando as instituições estão em crise, o que acontece do ponto de vista psíquico?

Veja só. Eu disse que sofremos quando elas são muito rígidas porque quem não se encaixa é visto, e se vê, como desviante em relação aos valores aceitos naquela época e lugar. Esse relativismo relativo torna as instituições menos rígidas.

Mas essa situação de crise de valores também gera sofrimento porque ficamos órfãos, perdidos, desamparados. De certa forma, as instituições e os valores que elas criam protegem nossa vida psíquica.

Como assim?

É só pensarmos em pessoas que estão meio perdidas e “se curam” quando abraçam uma causa qualquer. Sem instituições minimamente sólidas, afundamos no pântano da pós-verdade, do relativismo absoluto. E aí a gente começa a passar fome – fome de valores! – por causa da miséria simbólica, herdeira da crise das instituições.

Legal lembrar que pode haver miséria simbólica mesmo quando há dinheiro para comer, beber e consumir.

Pois é! Hoje em dia estamos passando fome de valores. Desconstruímos tudo de forma tão radical que chegamos, como mencionei, ao absurdo da pós-verdade! Lembra-se de Mal-estar na civilização?

Claro! Muitas de nossas conversas têm esse texto de Freud como inspiração. Entendo que o conservadorismo é um sintoma, uma defesa contra a miséria simbólica.

Isso mesmo! Nesse sentido, eu prefiro falar em neoconservadorismo, pois cada época e lugar produz um tipo específico de conservadorismo. Que valores são criados quando a gente junta miséria simbólica com polarização? Não são valores com V maiúsculo, como igualdade, liberdade e fraternidade. Esses são valores complexos, cujo grau de abstração é incompatível com a miséria simbólica. Tais valores exigem a capacidade de perceber nuances, tarefa incompatível com a polarização. Por isso, o que vemos, lamentavelmente, é um movimento de tentar matar a fome de valores com v minúsculo.

Seria como matar a fome com junk food, em vez de comer coisas saudáveis?

(risos) Boa, Ana Lisa, isso mesmo! São valores muito concretos, colados na materialidade, na sensorialidade. Só para dar um exemplo, no atual contexto de miséria simbólica, o nu artístico não tem transcendência nenhuma, não representa nada. É apenas uma pessoa pelada e, portanto, algo moralmente condenável. Junte-se a isso a polarização e teremos um fla-flu entre pessoas que “defendem valores” contra pessoas “que querem corromper (!) a juventude”.

Essa conversa dá o que pensar! Muito louco tudo isso!

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Um comentário sobre “Neoconservadorismo, um sintoma da miséria simbólica

  1. Cito o livro de Lipovetsky “ A era do vazio” e também um artigo de Alicia Beatriz D de Lisondo sobre a sociedade pôs moderna e dizer sobre os grandes escritos de Melanie Klein sobre fase esquizo-paranoide é fase depressiva e um livro de Márion Minerbo “ Neurose e não Neurose. A relação de objeto tem piorado muito.

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