Fui com a cara dele

Por Maíra Tanis

Até hoje não sabia por que, mas adoro essas lojas de bugigangas, como bazares de antigamente, que vendem de tudo; precursores das lojinhas de coreanos, que também adoro. Nunca deixo de entrar em uma loja assim. Se estiver em qualquer lugar do mundo e passar na frente de uma, entro sem dúvida. E, dependendo do dia, sempre encontro coisinhas que preciso comprar urgentemente mas, até aquele momento, não sabia.

Perto do meu consultório tem um bazar deste tipo, bem grande. É sempre minha primeira opção para tudo que preciso comprar. Além da proximidade, por algum motivo ainda desconhecido estava apegada àquela loja, especialmente ao dono: um senhor alto, magro e com cara de poucos amigos. Quando eu via ser ele no balcão, entrava mesmo sem saber o que iria pedir. Se fosse o ajudante mais jovem, ágil e simpático, não sentia esta atração. Fato difícil de explicar. Foi a leitura desse texto sobre transferência, também publicado aqui no Blog, que me despertou para compreender o fenômeno e tentar, de alguma forma, explicá-lo.

***

Hoje precisava comprar dois carretéis de linha branca. Fui até lá e vi o senhor fazendo um pacote. Usava papel pardo e barbante. Vi suas mãos hábeis virando o pacote e trançando o barbante, apoiando o dedo indicador no trançado, dando um nó e depois um laço. Com cuidado, deixou espaço para que o trançado de barbante pudesse ser usado como alça para carregar o pacote, do tamanho de um jogo de tabuleiro como damas, imaginei.

Aqueles gestos me emocionaram. Fiquei observando comovida e, na hora, me lembrei do meu avô. As mãos rápidas, precisas e grandes embalando os produtos do seu pequeno bazar no interior de São Paulo, há 50 anos. Neste momento entendi perfeitamente de onde vinha tanta simpatia por aquele senhor carrancudo. Suas mãos e seus gestos me lembravam do meu avô querido. O bazar, é claro!

Claro que gosto de bazares bagunçados: estão diretamente associados ao meu avô e a uma alegria infantil de ver aquela imensa quantidade de coisas coloridas, todas ao meu alcance. Bastava pedir. A escada gigante que me deixavam usar para pegar os brinquedos maiores que ficavam na última estante era uma espécie de conquista espacial, chegar no alto equivalia à chegada do homem na Lua.

Depois de prestar atenção naquele pacote sendo feito, percebi que reconheci o gesto, o ato e até o cheiro da loja dos meus avós. Uma ternura enorme tomou conta de mim e pude entender com precisão por que aquele bazar me atraía tanto. Certamente eu já havia visto estas mãos e o barbante e a bagunça organizada das mercadorias. Sem me dar conta, aquilo ecoou em mim. A gente vê muito mais do que sabe que vê. Percebe coisas que são registradas em nossas mentes em forma de memórias e que, muitas vezes, permanecem inconscientes (embora não inativos).

Tenho certeza de que transferi para este mercadinho a enorme simpatia que sentia por meu avô e por tudo que, na minha memória, está associado a ele: seus gestos, sua voz, sua casa, sua loja, as histórias que ele me contava, a enceradeira de chumbo, a geladeira a diesel. Todos estes fragmentos foram acionados quando entrei pela primeira vez naquele bazar, quando vi aquele senhor fazendo pacotes.

Uma transferência positiva se instalou naquele instante e ficou acionada sem que eu me desse conta mas, ainda assim, ativa e relevante na construção da minha relação com aquele lugar e com o Sr. Alberto, dono do bazar.

Descobri que o Sr. Alberto e eu temos a mesma idade. A transferência produz algumas alucinações também. Na minha percepção infantil, ele era um senhor, um avô, muito mais velho do que eu.

Se me perguntassem há algum tempo por que eu gostava tanto daquele lugar, não saberia dizer. A moça que não foi com a cara da analista de botas longas também não. O fenômeno perceptivo no qual a memória construída tem papel ativo, inconsciente mas fundamental, parece ser o mesmo.

A lembrança de meu avô é feita de muitos fragmentos de memória associados: gestos, sons, aromas, lembranças; tudo parece empacotado num arranjo positivo, coisas boas. Bastou um pequeno detalhe, neste caso quase imperceptível, para que o dono da loja e suas mercadorias me remetessem imediatamente a uma sensação boa. Talvez tenha sido algo assim que convocou a transferência negativa da qual falou Marion Minerbo em seu texto “Não fui com a sua cara”.

 

 

 

 

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2 comentários sobre “Fui com a cara dele

  1. Maíra adorei seu texto.. acho porque também tive uma relação muito positiva com meu avô..Assim uma transferência positiva com aquilo que vc escreveu.Parabens

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