Que tiro foi esse?!

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Domingo, almoçando com duas amigas, assisti a um vídeo que viralizou no Youtube. É de uma funkeira chamada Jojo Todynho. É uma figuraça, não sei se você já viu.

Não vi…

Não acreditei quando ouvi a música “Que tiro foi esse?”, acompanhado de coreografias e performances, em que as pessoas simulam que foram alvo de uma bala perdida e caem “mortas” no chão. Várias celebridades aproveitaram para postar seus próprios vídeos com a mesma trilha sonora. Achei bizarro porque balas perdidas matam – são uma tragédia, uma praga. Ainda mais curioso foi descobrir que a expressão virou elogio, já que a letra do funk é “que tiro foi esse, que está um arraso”. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Não conheço este funk. Vamos ver juntas. Aqui está. Achei. Jojo Todynho. https://www.youtube.com/watch?v=Qw4uBk7DOa8

60 milhões de visualizações?? Do ponto de vista psicanalítico, isso quer dizer que veio atender a alguma necessidade emocional das pessoas.

Olha, tem também outros vídeos tragicômicos “comentando” o primeiro. As pessoas “levam um tiro”, morrem, e ressuscitam dançando num ritmo frenético e sensual. Este, por exemplo. https://www.youtube.com/watch?v=hEBcLojaxOI

Acho que o tiro + coreografia têm uma função do ponto de vista emocional: servem para “dominar” coletivamente a angústia de viver com medo de ser atingido por uma bala perdida em qualquer lugar, a qualquer hora, do nada.

Dominar a angústia com um funk?

É que eu associei esses dois tempos – morrer e ressuscitar – com uma sacada genial de Freud. Ele entendeu que o brincar servia para as crianças dominarem seus medos. O prazer de brincar é também o prazer de dominar o medo. O neto dele inventou uma brincadeira em dois tempos que ficou conhecida como fort-da. São “palavras” no vocabulário alemão de um bebê. A tradução em português adulto seria “foi embora – voltou”

Ah, conheço! O garotinho atirava um carretel debaixo da cama e gritava “foi embora!” Depois puxava o fio, o carretel voltava, e ele exclamava, feliz da vida: “voltou!”. Repetia esses gestos com as mesmas palavras muitas e muitas vezes. Freud descobriu que ele estava brincando com o perigo: fazer a mãe-carretel desaparecer (a mãe tinha saído de casa, tinha sumido do campo visual do filho), mas também fazê-la voltar assim que quisesse. O Fort-da era uma maneira de transformar o pior pesadelo de qualquer criança, ser abandonado pela mãe – note a voz passiva de “ser abandonado” – numa situação em que ele tinha voz ativa. Graças à repetição rítmica, acabava produzindo prazer no lugar do pavor.

Quer dizer, brincar é uma maneira de criar uma “historinha”, uma narrativa, que serve para controlar simbolicamente o que apavora. Foi o que pensei a respeito do funk “que tiro foi esse”. O potencial traumático da bala perdida poderia ser “dominado” psiquicamente graças a essa brincadeira tragicômica no campo da cultura.

Será que isso de controlar o terror por meio de uma historinha, ou de uma brincadeira no campo da cultura, tem a ver com o gosto de certas pessoas por filmes de terror? Elas também estão brincando com o perigo?

Bem lembrado, acho que sim. Podemos falar disso algum dia.

Então “que tiro foi esse” pode ser entendido como um fort-da das comunidades. Ajuda a tolerar o intolerável. Eu acho que morrer desse jeito é pior do que morrer numa guerra ou num ataque terrorista, que bem ou mal já fazem parte do nosso repertório psíquico. Aqui não. Isso não fazia parte de nosso repertório até pouco tempo atrás. Assim como Auschwitz era inconcebível até acontecer, e passar a fazer parte do nosso repertório. A bala perdida é uma morte aleatória, deu azar, absurda, sem sentido nenhum.

Dá para morrer ainda no útero, sem sequer ter nascido!

Acho que este funk veio para inscrever esse horror em nosso repertório simbólico. As pessoas precisavam disso. Satisfaz uma necessidade emocional. Permite conceber o tanto que a vida e a morte podem ser aleatórias. Senão não haveria 60 milhões de visualizações.

Então, mal comparando, é como a tragédia grega – uma criação cultural que permite fazer a catarse dos nossos piores terrores, desejos, ambições, ódios, rivalidades, parricídios, matricídios…

Bem pensado! A música gritada que penetra na medula, a morte e ressureição coreografadas num ritmo frenético e sensual, e a própria presença cênica impactante da Jojo – tudo isso ajuda a purgar nossas raivas e dores. Rimos de nervoso e de revolta. Gritamos juntos nossa impotência, compartilhando com os semelhantes um mesmo destino. Mas também dançamos comemorando a vida.

E talvez a figura da Jojo Todynho também tenha sua importância.

Concordo. Estamos vivendo um momento de empoderamento de minorias. Sendo mulher, negra, pobre, e com um visual disruptivo, criado para contestar os modelos hegemônicos de beleza, ela está bem posicionada para ser a porta-voz da comunidade. Ela canta seu cotidiano inaceitável de um jeito que consegue ser, ao mesmo tempo, um protesto raivoso, desesperado, vital e bem-humorado.

Só não entendo uma coisa. Como um tiro pode ser um arraso? Como esta violência pode ter uma conotação positiva?

Ah, acho que tem a ver com a glamourização da violência e do crime, especialmente do tráfico. Traficantes podem ser vistos como heróis. Essas figuras masculinas “bem-sucedidas” que “cuidam” de suas comunidades têm seu apelo. Roubar, matar e desafiar a polícia podem ser vistos como manifestação de virilidade e ter um apelo junto às mulheres. Não por acaso é uma funkeira que diz “está um arraso”.

Dependendo do ponto de vista, a bala perdida é um horror ou um arraso…

Muito louco tudo isso!

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7 comentários sobre “Que tiro foi esse?!

  1. O texto em si é muito bom se levarmos em consideração a lógica do raciocínio e os questionamentos colocados, o que me intrigou foi que a expressão:” Que tiro foi esse?” é uma expressão LGBT com outras conotações.
    Assim, se pensarmos no significado da expressão e o debatido se tem a impressão de estar fora ….
    Enfim apenas uma reflexão
    Att
    Anna

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi Anna, bom dia,
      Obrigada pelo seu comentário e pelo esclarecimento sobre a origem da expressão, da qual não tínhamos notícia. No clip, porém, a percussão e a coreografia sugerem que, mesmo tendo outra origem, o termo está sendo usado também para falar de balas perdidas. Acho que há uma sobreposição de referências, nesse caso. Um abraço, Marion.

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  2. “A bala perdida é uma morte aleatória, deu azar, absurda, sem sentido nenhum” – a frase que despersonaliza o assassino, retirando dele a responsabilidade. Como dizer: estou encharcado porque choveu, dei azar.
    Em Israel fazem o mesmo, desenvolvem mísseis anti-misseis para se defender, deliberadamente ignorando o fato de que são terroristas que estão atacando o país.

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  3. Independente da origem ou dos mais diversos sentidos que a expressão possa ter, o simples fato de ‘que tiro foi esse’ estar associado ao elogio ‘que tá um arraso’, já é motivo o suficiente para no mínimo nos questionarmos sobre o porquê dessa associação.

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  4. No meu ponto de vista ,Que tiro foi esse é que as pessoas estão aprisionadas num sentido conotativo. Com medo de uma situação que pode surgir a qualquer momento sem esperar , isso causa pânico, pavor. O que estamos vivendo no momento e as pessoas estão sensíveis. Que tiro foi esse ,foi um arraso mas as coreografia mexe com o emocional fragilizado.

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