A morte do bom-senso

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Uma amiga estava me contando que contratou uma personal stylist. É uma profissional que ajuda você a se vestir. Não é só alguém que entende de moda. Ela tem um olhar para o biotipo, a personalidade, a atividade, o estilo e o nível de vida, e ajuda a formatar a imagem que a pessoa quer passar ao se vestir. Organiza o que a pessoa já tem no armário e indica lojas para o que estiver faltando. Se o cliente quiser, vai junto para fazer as compras. Minha amiga não é uma artista ou uma celebridade. É uma pessoa comum como eu e você. Dá a impressão de que a gente não sabe mais viver sem a ajuda de especialistas. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Muito bem observado, Ana Lisa. Eu também reparei nisso. No começo fiquei me perguntando se seria muito diferente de você consultar um médico, especialista em alguma doença. Ou de contratar um professor de piano para aprender a tocar. Nesses dois casos, é evidente que cada um tem um saber e uma experiência que um leigo não tem. Mas depois percebi que fomos, de fato, virando leigos em tudo!

É mesmo! E, ao mesmo tempo, foram surgindo especialistas em tudo! Já não sabemos comer sem a ajuda de um nutricionista. Nem fazer ginástica sem a ajuda de um personal; planejar a vida pessoal e profissional sem um coach; levar um casamento sem terapia de casal; dar à luz sem o acompanhamento de um time de profissionais; criar filhos sem a ajuda de psicólogos e educadores; fazer uma poupança sem a ajuda de economistas. Nossa, será que é por isso que os livros de auto-ajuda estão bombando??

Faz sentido! Suponho que a personal stylist tenha estudado um pouco de semiótica numa faculdade de moda. Aí ela se torna uma especialista em mensagens que o corpo-vestido transmite, enquanto sua amiga deve ser totalmente leiga no assunto. Imagine o perigo de se vestir sem saber que imagem ou mensagem você está passando!! (risos)

(risos) Por outro lado, essa profissional não deve estar atualizada sobre as últimas descobertas científicas sobre o que faz bem ou mal em termos de alimentação. Vai precisar de uma nutricionista para saber comer.

Contanto que ela tenha bom senso e não perca o contato com a vida real.

Espera aí: você é contra especialistas?

De jeito nenhum! Sempre que precisar, vou recorrer a um. Aliás, a psicanálise não é contra nada, apenas tenta interpretar o que um comportamento coletivo revela sobre o mundo em que vivemos. Tentamos evitar uma postura que, além de moralista, é muito chata.

Afinal, ninguém escapa da cultura em que nasceu!

Pois é! O fato é que, na nossa cultura, a relação com a vida está, cada vez mais, mediada por coaches. E como observaram duas colegas, Luciana e Isabel Botter, isso acontece mesmo na relação entre a mãe e seu bebê, que sempre foi “natural”, espontânea e direta. Claro que a intenção é a melhor possível …

… Ninguém vai querer usar o próprio filho como cobaia. Nesse sentido, é bom ter a ajuda de um especialista em amamentação!

É claro que em alguns casos complicados isso é muito importante. Se você é uma celebridade, uma personal stylist é fundamental. É arriscado ser maratonista sem o acompanhamento de um nutricionista e de uma assessoria esportiva. Mas quando o coaching se torna a regra para tudo, a gente tem que se perguntar o que isso revela sobre o mundo em que vivemos.

De fato, é um pouco bizarro a gente ter medo de fazer besteira se tentar viver sem a mediação destes profissionais.

Isso indica que o saber comum passou a ser vivido como coisa de leigo. A mãe se desautoriza. Deixa de confiar no seu bom senso, no que faz sentido para ela, naquilo que ela poderia aprender diretamente da sua própria experiência. A superespecialização ganha terreno sobre o saber comum, aquele que se conquista na relação direta com a vida.

Mas por que isso acontece?

Pensa comigo: o conhecimento passou a ser produzido em massa pelas universidades, criando aquilo que chamamos de indústria do conhecimento. Para abrir espaço para a gente consumir esse conhecimento hiperespecializado, é preciso desqualificar o saber comum. Nessa hora o conhecimento super especializado passa a valer mais do que o saber comum.

Entendi. As pessoas passam a investir os especialistas como autoridades no assunto, e em paralelo, se tornam leigas. E quanto mais se tornam leigas, mais precisam dos especialistas.

É um pouco mais complexo do que isso. O problema é quando a produção industrial de conhecimento faz com que as coisas passem do ponto.

Como assim?

Baudrillard cunhou o termo hipertelia para descrever um sistema que se desenvolve tanto, tanto, tanto, que vai além de sua finalidade racional, e acaba anulando seus próprios objetivos.

Ah! É uma espécie de obesidade mórbida, ou de multiplicação cancerosa do conhecimento?

Excelente imagem! O câncer é um enlouquecimento das células de um órgão, que se multiplicam até inviabilizar o seu funcionamento. A mesma coisa acontece com o conhecimento. Ele pode desembestar até matar o senso comum. Por exemplo, saber alguma coisa sobre o valor dos nutrientes é importante para nossas vidas. Mas quando se sabe demais da conta, já não sabemos o que, como e quando comer.

O tiro sai pela culatra…e mata o bom senso.

Uma pena…Nesse sentido, a hiperespecialização se descola da vida real. Ela só serve para os próprios especialistas.

Um pouco como certos estilistas parecem estar a serviço da moda, e não das pessoas.

Nossa, muito louco tudo isso!

 

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