Depressões

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Tenho vários amigos que estão deprimidos, até parece uma epidemia! Um que praticava corrida – corria pelo menos duas horas por dia – se machucou seriamente, teve que parar e se deprimiu a ponto de não querer mais levantar da cama. A outra sempre foi meio pra baixo, do tipo pessimista, mas agora piorou. Faz o mínimo necessário – da casa para o trabalho – e diz que a vida não tem graça, não tem vontade de viver. Uma terceira amiga se sente um fracasso, acha que ninguém gosta dela, se tranca em casa e não quer ver ninguém. Está todo mundo tomando antidepressivo. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Suas observações são bem interessantes. Cada caso é um caso e, ao mesmo tempo, eles têm em comum um mesmo tipo de sofrimento psíquico, que chamamos de depressão.

Podemos conversar hoje sobre o primeiro e deixar os outros para outro dia.

Ótima ideia. Primeiro gostaria de esclarecer que para a psicanálise há uma continuidade entre corpo e mente, entre o biológico e o psíquico. Um afeta o outro e vice-versa. A depressão grave melhora com a ajuda de remédios, como a febre abaixa com antitérmicos. Mas os medicamentos não alteram o funcionamento psíquico que produz a vivência tenebrosa de ser um fracasso, indigno do amor dos outros, ou a falta de vontade de viver.

E de onde vêm essas ideias e sentimentos que tornam a vida tão pesada e difícil? Por que certas pessoas se sentem num beco sem saída?

A pergunta é simples, a explicação é complexa. O caso do seu amigo que deprime quando para de correr é bom para mostrar como os níveis biológico e psíquico se potencializam e levam ao estado doloroso que chamamos de depressão.

Do ponto de vista psíquico, se seu amigo desmorona temos que supor que 100% da autoestima dele dependia de se sentir competente nessa atividade. Correr bem fazia com que pudesse amar a si mesmo.

Lembro que quanto mais a corrida alimentava sua autoestima, mais ele tinha prazer em correr.

É isso mesmo. Em geral, o que a gente faz com prazer, costuma sair bem feito. Aí a gente sai bem na foto, e isso aumenta a nossa autoestima. Mas é importante ter várias fontes de autoestima, isso é sinal de saúde mental.

Daí quando perde uma, você tem outra.

E o amor próprio, o amor ao próprio Eu, é fundamental para a gente sentir que merece a parte boa da vida. É uma condição para a gente conseguir sonhar, ter energia para ir atrás do próprio sonho e enfrentar os desafios que aparecerem no caminho.

A corrida era a paixão dele.

Só que paixão é diferente de amor. A gente pode amar várias coisas e pessoas ao mesmo tempo. Mas a paixão é exclusiva. Quando alguém está apaixonado, o resto do mundo não existe. Quer dizer, existe materialmente, mas não existe emocionalmente, não é significativo.

Dá para entender por que ele não sai mais da cama: nada mais é significativo para ele. E quando a única fonte de autoestima já não está disponível?

O ego começa a “passar fome”. Em pouco tempo desmorona.

Como se ruíssem as fundações que sustentam um prédio?

Exatamente. Não para em pé. Sinal de que a estrutura toda era muito frágil.

Mas vamos falar um pouco sobre o nível biológico da depressão. Correr estimula a liberação de endorfina, que funciona muito bem como ansiolítico e/ou antidepressivo.

Então parar de correr também seria equivalente a suspender o antidepressivo de uma hora para outra?

Sim, e aí o sentimento de que a vida não tem graça aparece com tudo.

Mas se a corrida funcionava como uma espécie de fundação dupla, psíquica e biológica, fica muito claro que a depressão é só um sintoma, o buraco é mais embaixo.

Este é o ponto de vista da psicanálise. As “fundações” do Edifício Ego são instaladas muito cedo, digamos entre 0 e 4 anos. A construção do edifício continua mesmo quando alguma coisa dá errado. Bem ou mal, todo mundo dá um jeito de ir em frente. Só que a pessoa vai construindo sua vida em cima de um ou mais pilares trincados. Como as fundações estão debaixo da terra, ninguém vê o estado em que estão.

Nossa! Então só dá para saber que tinha problema quando o edifício desaba!

Você disse que todo mundo dá um jeito de ir em frente? Como isso é possível?

A gente arranja defesas que compensam os pontos frágeis. Por exemplo, um dia a pessoa fica viciada em corrida. Mas já na infância é possível detectar dificuldades. Por exemplo: timidez/insegurança exageradas, hiperatividade, agressividade, insônia, doenças repetidas – tudo isso pode indicar que algo não vai bem do ponto de vista psíquico.

Conheci um menino que não come nada além de batata frita. Achei estranho.

As crianças não falam de seu sofrimento, elas mostram que algo vai mal por meio de comportamentos. Cabe aos adultos reconhecerem e interpretarem esses sinais. Eles indicam que os pilares não estão dando conta de sustentar o peso do edifício. Estão rangendo.

Lembrei de uma amiga que não desgruda do namorado. A relação é péssima, tumultuada. Os dois se agridem e sofrem muito. Já se separaram e voltaram mil vezes. Dá a impressão de que um desabaria sem o outro.

É isso mesmo. Claro que a justificativa culturalmente aceita é “eu o amo”. Mas o buraco é mais embaixo porque a relação, tal como você a descreveu, é passional. Exclusiva. Eles não podem se separar porque cada um pôs todos os ovos na cesta do outro.

Faz muito sentido pensar que a depressão é apenas o sintoma, que o buraco é mais embaixo e que qualquer coisa pode ser usada para “tapá-lo”: a corrida, um namorado, um ideal de vida.

Todos nós temos nossos buracos e fazemos isso em algum grau. O problema é quando o desenvolvimento psíquico parou no meio do caminho antes que a gente conseguisse diversificar nossos investimentos amorosos. Quando isso acontece, a gente se relaciona com uma coisa só, e sempre passionalmente. Aí o risco de deprimir é grande.

Muito louco tudo isso!

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4 comentários sobre “Depressões

  1. Maravilhoso artigo/diálogo! CLarissimo na relação que estabelece entre o cotidiano e os conceitos chave que aborda. Vou espalhar entre poucas pessoas verdadeiramente interessadas nessa lucidez e na abertura de caminhos que propõe. Parabéns!

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  2. Olá, gostei muito desse artigo, ele me abriu os olhos em relação a minha família, mais especificamente minha irmã e sobrinho de onze anos, o marido dela e muito violento e evidentemente está causando danos graves ao meu sobrinho que está crescendo uma criança violenta também, não tem respeito pela minha irmã e isso está deixando a doente, pois não tem autonomia com o marido e nem com o filho. Vocês poderiam me orientar me indicando algum lugar em Campinas que eu possa procurar ajuda para eles, eu sei que a solucao seria minha irmã se separar mas els ama esse marido incondicionalmente é uma relação estranha, atribulada e sem respeito um com outro…. Enfim, ela não é feliz, parece que não tem mais ânimo para viver e o filho, meu sobrinho e minha maior preocupação, temo pelo seu futuro. Vocês conseguem nos ajudar? No aguardo

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