Trocando figurinhas

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Você já reparou que em anos de Copa do Mundo todos resolvem colecionar e completar aquele álbum, e começa um tal de trocar figurinhas … crianças, adolescentes, adultos … é um movimento geral! Fico sempre me perguntando de onde vem, e que sentido tem, essa atividade aparentemente infantil, mas que, nesses momentos, pega todo mundo. Não é curioso? O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Taí um tema que parece banal, mas quando interpretado psicanaliticamente, pode revelar alguma coisa sobre o mundo em que vivemos. Como tem muito adulto levando a brincadeira a sério, é sinal de que vem preencher alguma necessidade emocional.

Então a gente pode supor que tem mais coisa aí do que simplesmente conseguir todas as figurinhas e completar o álbum. O que seria?

Primeiro ponto em que a gente pode pensar é que essa troca de figurinhas funciona como uma espécie de aquecimento para a batalha festiva da Copa.

Batalha festiva?

Sim, pois o futebol, assim como outros esportes, é um destino lúdico, simbólico e legítimo para a rivalidade e a agressividade.

Mas não é só isso: a troca de figurinhas, em si mesma, cria uma sociabilidade democrática e solidária. É uma atividade que pode ser praticada por qualquer um em qualquer lugar, e permite que todos participem juntos. Não existe propriamente uma competição em que apenas um é vencedor. Tem figurinha pra todo mundo e todos podem completar o álbum!

Nossa, Marion, é verdade! Pensando aqui com você, é como se fosse muito mais uma questão de cooperação do que de competição, ou de quem tem dinheiro para comprar mais figurinhas.

E tem mais um aspecto interessante: todo mundo pode ser importante para o outro porque esse outro talvez tenha a figurinha que eu preciso. Não só todos são iguais perante a sorte, como também eu valorizo aquilo que o outro tem para me oferecer. Sinal de que, no mundo competitivo de hoje, todos temos “fome” desses valores.

Ah, então essa é a necessidade emocional que essa brincadeira vem preencher, e por isso a troca de figurinhas vira uma instituição do tipo “pop up”! As pessoas percebem que na verdade estão todas no mesmo barco e que um pode ajudar o outro.

Exatamente. No começo pode até ser que as pessoas troquem as figurinhas motivadas pelo interesse em completar o álbum. Mas nisso vai se criando um senso de comunidade, uma rede de colaboração. Essa experiência de comunidade fundada na colaboração se torna, ela mesma, o sentido maior dessa atividade. Nada banal, concorda?

Nossa, Marion, você está otimista! Num mundo tão individualista e que segrega cada vez mais as pessoas, você realmente acha que isso acontece?

Eu acho, sim. Basta ver como as pessoas acabam conversando com desconhecidos, fazendo amigos na banca de jornal, abordando estranhos…tudo isso em nome de algo que pode ser trocado. Aquela eterna desconfiança que permeia a relação entre as pessoas na cidade dá espaço a uma trégua.

Verdade! É como se a figurinha fosse uma bandeira branca hasteada no meio da batalha cotidiana pela sobrevivência.

Isso mesmo! Ótima essa imagem, Ana Lisa! É bem por aí: os estranhos deixam de ser inimigos em potencial e se tornam possíveis colaboradores. E se a gente parar para reparar, são vínculos sem compromisso. Um pouco parecido com as amizades que fazemos quando estamos viajando.  

É mesmo! De repente uma pessoa que você nunca nem viu – e que provavelmente nunca mais verá – vai te ajudar a completar essa empreitada do álbum. E o vínculo de vocês será apenas esse.

Aliás, Marion, isso que você falou me fez pensar na ideia de reciprocidade. Você acha que tem a ver?

Tem tudo a ver! A troca de figurinhas permite que, em alguma medida, a gente descubra, ou redescubra, a reciprocidade: todo mundo tem um tanto, e todo mundo precisa de um tanto! Não tem um que está por cima e outro, por baixo. Por isso, ninguém fica humilhado. A lógica da acumulação de bens é desconstruída e se relativiza, pois o que conta aqui é a lógica da troca!! Percebe como é outro mindset?

Essa conversa me abriu os olhos!! Agora faz todo o sentido ver esse montão de gente trocando figurinhas, empenhados em completar o álbum… porque, afinal, não se trata apenas de um álbum. Essa troca ganha outros sentidos, né? 

Exatamente, Ana Lisa! E eu ousaria até dizer que o mundo se torna mais acolhedor quando o outro está disponível, e pode nos oferecer justamente aquela figurinha que nos falta. Acho que não é à toa que essa expressão “trocar figurinhas” acaba sendo usada de forma metafórica para falar de outras trocas, mas sempre no sentido de que todos saem ganhando.

Sem dúvida, Marion! Interessante como uma atividade tão simples e comum permite, ainda que de quatro em quatro anos, uma experiência tão complexa e rica em termos humanos!

Muito louco tudo isso!

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