Você sabe colocar limites?

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Um casal de amigos tem um filho de 3 anos que já é um pequeno tirano. Quando contrariado, se joga no chão berrando, chuta e quebra as coisas. Fica totalmente fora de controle. Os pais tentam colocar limites, mas não conseguem. Quando a paciência acaba, saem do sério e berram de volta. E acabam trancando ele no quarto, de castigo. Dá para ouvir de longe o garoto chutando a porta de tanto ódio. Eles têm a esperança de que desta vez o garotinho vai se comportar, mas dali a pouco ele já está extrapolando de novo. E o ciclo recomeça. Todos ficam exaustos, arrasados e infelizes. A convivência deixa de ser um prazer e vira um tormento. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Que bom que você abordou este tema! Essa discussão é importante porque muitas pessoas têm a impressão de que a solução é simples, basta colocar limites. Mas você percebeu bem: há situações em que simplesmente isso não só não adianta, como ainda piora as coisas.

Sim, esta criança está cada vez mais revoltada.

Claro, porque falta uma reflexão sobre o que faz aquela criança se comportar daquele jeito. É como dar penicilina para todo mundo que tem febre, sem tentar descobrir qual é o foco da febre.

Então, como se faz esta análise?

Antes de mais nada, precisamos partir do pressuposto de que muitos comportamentos infantis são mensagens cifradas, na linguagem em que a criança consegue se comunicar. Um google kids, dentro da modalidade “tradução”, seria de muita ajuda. Em geral, o comportamento que você descreveu indica que há um foco de sofrimento psíquico intenso que não está sendo reconhecido, nem cuidado.

E que sofrimento seria este? Muitas vezes parece que a criança é mimada e quer tudo do jeito dela.

Crianças são excessivas. São um saco sem fundo de demandas e de exigências. É da natureza delas. Tendem a se excitar demais e a se desorganizarem de tanto querer alguma coisa. Não conseguem ser razoáveis. Ainda não aprenderam a regular os seus quereres de acordo com o que faz bem ou mal para elas. Ou mesmo de acordo com o que é possível ou não naquele momento.

Então, dar limites é, antes de mais nada, dar contornos, limitar esse excesso, já que essas criaturinhas são insaciáveis.

Exato. “Isso pode, isso não pode; isso é para seu bem, isso vai te fazer mal”.

Mas também é importante poder dizer: “isso não pode, mas se é tão importante para você, hoje podemos abrir uma exceção”.

E ainda: “hoje não dá, mas amanhã sim”.

Moderar e modular o desejo e o prazer, mas com jogo de cintura. E suponho que também com amor.

Bem lembrado. Vamos trocar amor, que é um termo muito genérico, por empatia: o adulto tem que ser sensível ao fato de que a criança vai sofrer com o “não”.

Então os pais têm que tolerar algum esperneio, já que eles estão colocando limites.

É fundamental! E aqui a gente começa a entender a mensagem cifrada de que te falei, expressão de um foco de sofrimento psíquico não reconhecido. Tem pais que, por motivos totalmente inconscientes para eles, não aguentam o mínimo esperneio diante do “não” que eles disseram ao filho. Proíbem o que, no fundo, é justo e até esperado. Ou pior: se “vingam” (de um jeito mais ou menos sutil) da criança que está expressando sua raiva.

Mas esperneio também não tem que ter limites?

Sim, claro. Mas ele tende a arrefecer naturalmente quando conseguimos, com algum afeto e muita paciência, transmitir à criança que ela tem razão em espernear. Que a gente entende que é chato mesmo ouvir um “não”. Mas também que não é o fim do mundo, pois logo haverá outros “sins”.

Entendo por que a empatia é tão importante. E haja paciência!

E quando até o direito de sentir e expressar alguma raiva é “cassado”, o meio de campo começa a embolar. Percebe que isso já não tem mais nada a ver com “colocar limites”?

Percebo. Aquilo que estava a serviço de dar contornos e de ajudar a criança a se autorregular vai se transformando, imperceptivelmente, em pura e simples repressão – no sentido militar, e não no sentido psicanalítico.

Em vez de ser estruturante, a repressão militar produz sofrimento psíquico. Surgem sintomas que precisam ser corretamente diagnosticados, ou melhor, traduzidos.

Alguém tem que inventar urgentemente um google kids!

Então aqui vai a primeira dica de tradução: sabe qual a diferença entre frustração e dor psíquica?

Frustração tem a ver com um desejo que não foi satisfeito.

Isso mesmo. “Não vai tomar mais um sorvete porque já tomou dois, está de bom tamanho”. Ou então: “acabou o dinheiro, não posso te comprar mais um sorvete”. Um “não” bem colocado faz bem, só que é chato, dá raiva. Normal.

Já a dor eu acho mais difícil.

A falta de empatia sistemática dos pais em relação à vida emocional da criança produz dor psíquica. E aí, quando este sofrimento se torna crônico, não produz mais uma simples raiva, mas um verdadeiro ódio.

Espere um pouco: ódio de quem contra quem?

Quando o meio de campo embola, todos sofrem e por isso todos surtam. Pode ser um pouco chocante o que vou dizer, mas a verdade é que o ódio é recíproco. Os pais querem esganar os filhos e vice-versa.

Isso é exatamente o que está acontecendo na casa dos meus amigos.

Muito louco tudo isso!

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