A morte do bom senso

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Uma amiga estava me contando que contratou uma personal stylist. É uma profissional que ajuda você a se vestir. Não é só alguém que entende de moda. Ela tem um olhar para o biotipo, a personalidade, a atividade, o estilo e o nível de vida, e ajuda a formatar a imagem que a pessoa quer passar ao se vestir. Organiza o que a pessoa já tem no armário e indica lojas para o que estiver faltando. Se o cliente quiser, vai junto para fazer as compras. Minha amiga não é uma artista ou uma celebridade. É uma pessoa comum como eu e você. Dá a impressão de que a gente não sabe mais viver sem a ajuda de especialistas. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso? Leia mais »

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Quero ficar no teu corpo como tatuagem

Por Fátima Florido Cesar

E se não falas assim, de forma explícita, se não ages assim, carnal, serei jogada numa zona de obsceno abandono? Acreditarei que somos laços frouxos, enquanto sonho com estreitos nós? Mas aí é que está, grande tarefa da vida: saber ler nas entrelinhas, enxergar onde aparenta habitar o vazio os laços invisíveis. Aí é que está, se apurarmos nossa visão, por vezes rala, para ler nas entrelinhas poderemos enxergar os disfarces ali onde parecem pairar nó desfeito, linha dependurada, varais rompidos com suas roupas ao vento. Poderemos vislumbrar com nossa rara visão (porque também esta será capaz de ser de benfazeja acuidade) os caminhos que nos ligam, os afetos pungentes que equivocam corações sedentos de comunicações diretas. Anda mata adentro e descobrirás com júbilo a trilha oculta e desacreditada. Ali enxergarás, no lugar de aparente apatia, de lábios cerrados e braços cruzados e corpos reclusos, o laço que persiste e que acreditaste rompido. Crê que onde se apresenta a ausência, uma presença muda se oculta na sombra; onde vês e sentes o gelo, desconfia de chamas em descanso.Leia mais »

Parei de comer carne vermelha

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Ontem, mais uma amiga me disse que virou vegetariana. Sou praticamente a única carnívora da minha turma (risos)! Tem aqueles que só pararam de comer carne vermelha; outros que comem leite e ovos, mas nenhuma carne; e também os mais radicais, que não comem nada de origem animal. Nem mel. Perguntei para ela por que tomou essa decisão. Deu vários motivos. “Me sinto melhor quando não como carne”. “É desumano fazer isso com os animais”. “É uma forma de preservar o planeta”.

Fora os vegetarianos, tenho amigos que só comem orgânicos. E outros que estão na noia do clean eating: controlam tudo o que comem para evitar comidas “do mal”: lactose, glúten e nem sei mais o quê. Tem uma que chegou ao extremo da ortorexia, uma variante da anorexia. Lembrei da nossa conversa em agosto sobre como está todo mundo curtindo cozinhar, e sobre o delicioso sintoma da “gourmetização da vida”. [link aqui]. Meus amigos, ao contrário, parecem estar se privando do prazer de comer! O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?Leia mais »

Dor de si, dor do mundo

Por Fatima Florido Cesar

Arnaldo Antunes diz, em uma de suas canções, que gente não tem cabimento. É que pessoa é além, não cabe no corpo, se estende, pode tanto tanto… Não de poderoso, mas de ir além mesmo. Gente pode transbordar, bicho e planta não. É como se diz: “fulano não cabe em si de contentamento”.

O ditado popular confirma que gente não tem cabimento. E mais: gente tem que aprender a se perder. Mas tem um perigo nisso, porque gente tem que se perder e saber voltar. Jogar miolo de pão pelo caminho, para passarinho comer e se deixar em perdição. E tem o outro lado: jogar pedrinhas no chão que marquem a volta, porque a pessoa se abre, mas também se fecha. É ser cigano com casa de tijolo.Leia mais »

Fui com a cara dele

Por Maíra Tanis

Até hoje não sabia por que, mas adoro essas lojas de bugigangas, como bazares de antigamente, que vendem de tudo; precursores das lojinhas de coreanos, que também adoro. Nunca deixo de entrar em uma loja assim. Se estiver em qualquer lugar do mundo e passar na frente de uma, entro sem dúvida. E, dependendo do dia, sempre encontro coisinhas que preciso comprar urgentemente mas, até aquele momento, não sabia.

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É muita areia para meu caminhãozinho

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! No sábado estava numa festa com um amigo. Ele estava de olho numa menina linda, que também parecia interessada nele. Estava morrendo de vontade de ir falar com ela, mas não conseguia. Perguntei por que. Ele respondeu: “ela é muita areia para meu caminhãozinho”. Acabou ficando com uma que ele não queria tanto. Terminou a noite frustrado e preocupado, porque isso se repete em todas as festas. Não entendo: por que alguém não consegue ir atrás de quem deseja, e não deseja a que pode ter? O que a psicanálise tem a dizer sobre isso? Leia mais »

Neoconservadorismo, um sintoma da miséria simbólica

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Museus e exposições de arte censuradas pelo público, sob alegação de incitar pedofilia ou simplesmente por exibirem nus artísticos que, de repente, se tornaram “obscenos”. A “cura gay” como retorno de uma postura homofóbica, em pleno 2017! Políticos de direita e/ou conservadores em ascensão, em resposta à demanda popular em vários países. Manifestações racistas no futebol. Que onda conservadora é essa? O que a psicanálise tem a dizer sobre isso? Leia mais »

Polarização, um caso de daltonismo emocional

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Não consigo entender o movimento de polarização que a gente percebe em boa parte do mundo. Parece que estão todos num Fla-Flu, ou num filme de mocinho e bandido, com opiniões radicais e apaixonadas sobre tudo. Um lado xingando o outro. Ou pior, matando. Mas a vida não é um jogo de futebol! As coisas nunca são preto ou branco! É como se nós tivéssemos perdido a capacidade de ver os muitos tons de cinza, em que preto e branco existem juntos. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso? Leia mais »

A alegria do possível

Por Fatima Florido Cesar

Questões existenciais nos atravessam desde sempre e costumam ir além tão cotidiana pergunta que nos acompanha dia-a-dia: quem somos?

Para além dessa questão, somos atingidos por dúvidas de toda a ordem sobre o ser, sobre o nosso ser. Quem nunca se deparou com interrogações do tipo: qual o meu tamanho? Quais as minhas potencialidades? Que desafios e ânsias conseguirei superar, na busca pelas conquistas sonhadas? Quais os sonhos possíveis? E os impossíveis? Como manejar as expectativas dos nossos pais com as nossas, em um ponto de equilíbrio entre a submissão e o respeito às nossas origens?

Como conciliar originalidade com tradição? É possível ficarmos bem com aquilo que “nos cabe neste latifúndio”? Por “latifúndio” referimo-nos ao lugar que abriga o nosso tamanho, idioma e sonhos possíveis e que comporta tanto nosso mais além como a nossa pequenez. Cultivar desejos alados lado a lado com a consciência de que também somos limitados: o apreço pelas raízes com a ambição das alturas.

Os sonhos que tecemos precisam ser cuidados. Eles são a nossa entrada para a realidade. Os sonhos preparam o fazer, o existir. Inventam caminhos que ora se dão em terra firme, ora se dão em barcos desbravadores. Eles nos conduzem para o mais além, porque nascemos com a vocação para desdobramentos em infinitas bifurcações.

Mas chega a hora do retorno para a casa. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Todas as fixações são perigosas, mesmo que o projeto seja um viajar incessante. Desse modo, a vontade de ir perde seu potencial de novidade, transmuta-se em esquecimento do lar. Esse deslocamento infindável nos engana: tem ares de saudável liberdade, de desapego… No entanto, é de fixação que se trata; fixação que se apresenta pelo furor de movimento incessante, adesão à vontade de partir.

É no entre que ficaremos confortáveis. A saúde e o bem viver se situam na dimensão do possível. Se o sonho é manso, ele permite que se chegue ao possível. Em contrapartida ao sonho possível, as idealizações fazem com que nos imaginemos muito distantes do que somos. Tem-se aí a armadilha do ideal do eu. Se, por um lado, esse ideal do eu nos proporciona o cultivo de ideais, por outro, ele nos aprisiona na tentativa de ser algo que não somos. Uma coisa é sermos sonhadores e idealistas, aspectos saudáveis da nossa existência. Outra, bem diferente, é a fixidez nas idealizações.

Cria-se um embate difícil entre querer ser algo que nos distancia da nossa própria natureza e sossegar no próprio modo de existir, naquilo que nos cabe.

Para essa tarefa precisamos, de início, nos desvencilhar dos mandatos parentais. Desse processo faz parte conseguirmos relativizar aquilo que nossos pais sonharam em nós e para nós. Tudo isso sem deixar de lado uma parte daquilo que se teceu enquanto fomos gestados e cuidados. Uma parte da nossa herança vai permanecer.

Do outro lado, é nosso trabalho nos afastarmos daquilo que se quis demais, das missões às quais fomos destinados, de maneira a chegarmos na dimensão do possível. O encontro das águas da originalidade e da tradição.

Faz parte da nossa tarefa sossegar, sem cairmos na flacidez existencial dos gestos mínimos, nem nos entregarmos a desvarios das ambições impossíveis. Uma das alegrias mais genuínas é a que nos reconcilia com o nosso tamanho e com aquilo que nos cabe, sem que tenhamos de abrir mão do mais além que nos é destinado enquanto humanos. Mais um paradoxo. O entrelaçar do voo com o pouso, com o andar e até mesmo com o mancar. Eis a alegria do possível.

 

Não fui com a sua cara

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Uma amiga que está com a vida travada foi conversar com uma psicanalista. Não foi com a cara dela. Perguntei o motivo. No começo disse que não sabia. Depois pensou, pensou, e achou que podia ser porque a mulher estava usando botas de salto alto. Dei risada. No começo achei que não tinha nada a ver. Mas depois pensei: vai ver que para minha amiga aquelas botas significam alguma coisa do mal, evocam alguma experiência desagradável. O fato é que foi antipatia à primeira vista. Foi procurar outra pessoa que não usasse botas de salto. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?Leia mais »

Máquina de costura

Por Maira Tanis

Passei em frente a uma portinha colorida onde vários cartazes coloridos e bordados diziam ser ali um ateliê de costura, de bordado, de trabalhos manuais femininos. Tudo era muito feminino e eu esperava encontrar algumas senhoras fazendo tricô. Mas toquei a campainha – um sininho delicado, como tinha que ser -, e quem me abriu a porta de vidro foi uma moça, bem moça, com um sorriso lindo. Depois deste sorriso já sabia que eu iria ficar. Quem me levou para dentro deste espaço delicado foi a lembrança viva da minha avó, costureira.Leia mais »

Jeans rasgado

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que você gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! O jeans é uma roupa usada por todo mundo, jovens e velhos, ricos e pobres. É sinal de descontração, de estar à vontade. Diferente da roupa social, em que a pessoa obedece aos códigos de vestir obrigatórios em certos contextos. Agora, o que não consigo entender é o jeans rasgado! Vamos combinar que ninguém quer comprar um carro novo que já venha amassado. E se alguém percebe que sua blusa furou sem querer, pode ficar com vergonha. Então, por que rasgar uma calça nova para vendê-la? Por que alguém compraria uma calça rasgada? Isso não te parece uma loucura? O que a psicanálise tem a dizer sobre isso? Leia mais »

Você está podendo?

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa! Sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Meu primo tinha começado a cultivar uma horta no sítio dele. Era muito dedicado e se empenhava com amor em fazer crescer uns pepinos. Quando nasceu o primeiro, chorou de emoção. Até entendo que a gente fique satisfeito em colher os frutos do nosso trabalho, mas chorar por causa de um pepino? O que a psicanálise tem a dizer sobre isso? Leia mais »

Espelho, espelho seu

Por Luciana Saddi

Minha manicure trabalhava num cabeleireiro de bairro, onde a decoração era pretensiosa, a limpeza deixava a desejar, o lugar era mal iluminado e os espelhos escuros produziam imagens aquém da realidade. De tanto fazer as unhas acabei por me familiarizar com o espelhamento daquele lugar repleto de pessoas carinhosas, que me chamavam de doutora, me adulavam com facilidade e eram ineficientes – lá me sentia bem.Leia mais »

Como se fabrica um fanático

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Me contaram a história de Michel dos Santos, um jovem francês de família portuguesa que se juntou ao Estado Islâmico. Em 21 de novembro de 2014 o jornal Le Monde publicou uma matéria sobre ele escrita por Soren Seelow. A família ficou chocada quando o reconheceu em um vídeo de propaganda, participando daquelas execuções escabrosas. Tinha apenas 22 anos. Segundo eles, era um rapaz calmo, tímido e dócil. Católico praticante, gostava de futebol e música eletrônica. Aos 16 anos virou muçulmano. Deixou crescer a barba, mudou seu nome para Youssef e passou a frequentar a mesquita. Exigiu que a namorada saísse da escola e usasse véu. A mãe chorou e o pai o espancou. Não adiantou nada. Ele foi para a Síria. Este não é um caso isolado. Muitos jovens europeus têm trilhado esse caminho radical. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso? Leia mais »

Você também gosta de cozinhar?

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Ontem fui jantar na casa de amigos e aquilo não era um simples jantar: era uma verdadeira produção! Todos ali cozinhavam muito bem, e só se falou de comida! Restaurantes, programas de TV tipo Master Chef, os pratos que tinham preparado e que iam preparar, onde encontrar os melhores ingredientes. Conversaram sobre a tribo dos que só comem produtos orgânicos, dos vegetarianos, dos que não comem glúten e lactose, e por aí vai. Eu, que mal sei fritar um ovo, me senti um ET. Sorte que adoro comer bem! Claro que isso está mais circunscrito a certos grupos socioculturais, mas é tão importante que o Estadão tem o caderno Paladar e a Folha tem o Comida. O que a Psicanálise tem a dizer sobre isso?

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Só pele e osso

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Hoje (25/7/2017) estava lendo na Folha Equilíbrio uma matéria que fala da polêmica em torno do filme sobre anorexia “O mínimo para viver” (To the bone). Ele apresenta cenas de meninas esqueléticas, à beira da morte, e também fala dos truques secretos que elas usam para não engordar. Tem gente que acha que isso acaba estimulando quem está nesse caminho; outros pensam que é melhor falar abertamente, pois ajuda a entender quem sofre de transtornos alimentares. Para além da polêmica, eu achei interessante o tratamento alternativo proposto: uma espécie de comunidade terapêutica. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

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Netflix vicia?

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Depois que conversamos sobre as séries (“Que série você está assistindo”?), um amigo que segue nosso blog me contou que passa seus fins de semana fazendo “maratona”. Fica até 10 horas assistindo a vários episódios seguidos! Fui ver na internet e descobri que isso já tem até nome: binge watching. Como você comentou que a febre pelas séries revela uma fome de alteridade, bem como a necessidade de ‘viver’ outras vidas além da nossa, me perguntei se ele teria muuuuuita fome de alteridade. Ou se seria um fenômeno diferente. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso? Leia mais »

Que série você está assistindo?

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Nunca tinha reparado que todos os meus amigos estão assistindo a alguma série. Elas são assunto de conversa, as pessoas trocam dicas. Algumas séries viram febre, todo mundo já assistiu. Há centenas de ofertas na Netflix e os fãs ficam esperando as novas temporadas de sua série predileta. Mais de uma amiga faz maratonas: chega a ficar 10 horas seguidas assistindo! O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

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Jout Jout, uma amiga íntima virtual

Por Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Tenho uma amiga que está fascinada com a Jout Jout, uma youtuber de 26 anos. Assiste aos vídeos um monte de vezes, não desgruda. Diz que a Jout Jout – que tem milhões de seguidores! – é sua melhor amiga. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Que bom que você se interessa por esses assuntos do cotidiano que parecem banais! O olhar psicanalítico mostra que eles revelam algo de nossa cultura e, portanto, de nós, do nosso sofrimento psíquico. São pequenos sintomas do mal-estar na civilização.

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Na padaria

Por Maíra Tanis

Sábado de manhã acordo com um dia lindo de outono. Vou até a padaria que fica a uma quadra de minha casa tomar um café da manhã de fim de semana. É daqueles balcões onde os clientes ficam em pé, para tomar um café, um suco, comer um sanduíche – de pé mesmo -, as vezes o balcão fica bem cheio de gente, mas sempre dá para se apertar um pouco. Como era cedo, cheguei e fui me acomodar no lugar de sempre, mais perto dos pães. A Ivonete já veio sorrindo, com caneta na mão, pegando a comanda que deixei sobre a bancada de aço e perguntando: o de sempre? Sorri, disse que sim. Nem bom dia era preciso. Ela sabe que eu gosto de minas na chapa na canoa bem torrado, café com espuma de leite e água com gás.

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Machado de Assis e a desrazão

Por Luciana Saddi

Não faz muito tempo, num sábado à toa, meu filho me pediu “Dom Casmurro” de Machado de Assis. Disse que era leitura para a escola. Fiquei comovida em saber que ele leria os mesmos livros que um dia li. Algo de continuidade no tempo, de circularidade do tempo, promovia um encontro além dos nossos tempos. “Dom Casmurro” costurava nossas gerações, mãe e filho e Capitu e Bentinho se encontravam numa tarde qualquer de um sábado fresco. Acreditei que o livro estivesse em algum lugar da estante desarrumada, eu lera “Dom Casmurro” na mesma idade do garoto, talvez o livro ainda estivesse em casa, trinta anos depois. Lucas foi a procura do livro, se enfiou no quarto…era tudo silêncio. Será que ele tinha encontrado o antigo volume de couro verde, capa dura, que eu herdara de meus pais?

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